Estudo da FAO com participação do CEBIO aponta viabilidade da produção on farm de bioinsumos e caminhos para ampliar seu uso na região 

Foto: Divulgação / FAO

Acesse o estudo na íntegra: https://www.fao.org/investment-centre/latest/news/detail/making-economic-and-financial-sense-of-bioinput-investments-in-latin-america-and-the-caribbean/es

Os bioinsumos vêm ocupando um papel cada vez mais estratégico na agricultura mundial. Tratam-se de produtos ou processos de origem vegetal, animal ou microbiana utilizados na produção agrícola, incluindo microrganismos, como bactérias e fungos, macroinvertebrados, enzimas e extratos vegetais. Essas soluções podem substituir total ou parcialmente insumos químicos convencionais, contribuindo para o controle biológico de pragas e doenças, a fixação biológica de nitrogênio, a indução de resistência vegetal frente a estresses do clima, promoção de crescimento de plantas, bem como melhoria da fertilidade do solo. Como resultado, ajudam a reduzir custos de produção, fortalecer a saúde do solo, promover a sustentabilidade dos ecossistemas e diminuir os impactos ambientais da atividade agrícola. 

O interesse por essas tecnologias se intensificou nos últimos anos, impulsionado pelo aumento dos preços dos fertilizantes e dos alimentos e pela dificuldade do acesso aos adubos químicos, especialmente após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia. Esse cenário acabou por reforçar a necessidade de alternativas capazes de reduzir a dependência de insumos importados e tornar os sistemas produtivos mais resilientes e competitivos.

A América Latina e o Caribe produzem, em termos de disponibilidade calórica, alimentos suficientes para cerca de 1,3 bilhão de pessoas, aproximadamente o dobro de sua população. Ao mesmo tempo, a região enfrenta o desafio de ampliar a produção agrícola de forma sustentável, preservando os recursos naturais e aumentando a resiliência dos sistemas produtivos diante das mudanças climáticas. Os produtores também têm recorrido aos insumos biológicos por diferentes motivos, entre eles a conservação da fertilidade do solo, o aumento da produtividade, a redução dos custos de produção e o manejo de pragas resistentes, seja complementando ou substituindo parcialmente os agroquímicos sintéticos. Sendo assim, os bioinsumos vêm ganhando espaço, ao passo que o fortalecimento de modelos como a agroecologia, a economia circular, a bioeconomia e a agricultura regenerativa também crescem.

Nesse contexto, a adoção dessa biotecnologia representa não apenas um investimento vantajoso, mas também uma questão estratégica para a agropecuária. Foi com esse objetivo que a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) publicou a pesquisa “Estudos de caso sobre adoção e produção de bioinsumos na América Latina: uma análise de custos e benefícios”.

Baseada em um relatório anterior sobre oportunidades de investimento em bioinsumos na região, a recente publicação aprofunda a análise sobre a viabilidade econômica e financeira da adoção dessas tecnologias, contribuindo para preencher uma lacuna de conhecimento sobre o tema. O trabalho reúne experiências desenvolvidas em cinco países latino-americanos e avalia diferentes modelos de utilização de bioinsumos comerciais, produção on farm e biofábricas cooperativas.

Entre os estudos selecionados está um caso desenvolvido em Goiás com participação ativa do Centro de Excelência em Bioinsumos (CEBIO). A pesquisa utilizou dados obtidos em ações conduzidas pelo CEBIO e analisou a produção de soja com o uso de bioinsumos auto-produzidos em propriedade rural comercial para o controle biológico de pragas, em comparação com produtos equivalentes disponíveis no mercado.

Foto: Divulgação / FAO

Goiás como referência em pesquisa sobre bioinsumos

O estudo de caso brasileiro foi desenvolvido a partir da experiência da Fazenda Morro do Peão, localizada na zona rural de Urutaí (GO), propriedade rural comercial com 552 hectares destinados ao cultivo de soja e milho no verão, hortaliças irrigadas no inverno e pecuária de corte.

Durante a safra 2022/2023, a fazenda adotou uma estratégia de controle biológico de pragas baseada na produção de bioinsumos microbianos dentro da própria propriedade. Para isso, utilizou uma biofábrica equipada com dez biorreatores destinados à multiplicação de cepas bacterianas empregadas tanto na biofertilização quanto no controle biológico de pragas.

A estratégia contou com o assessoramento técnico e o acompanhamento da equipe do CEBIO, em nome do Prof. Dr. Alexandre Igor (Diretor Geral do CEBIO) e sua equipe de campo compreendida por alunos dos cursos Técnico em Agropecuária, Graduação em Agronomia e Pós-Graduação em Proteção de Plantas. Ao longo do ciclo produtivo da soja, os pesquisadores realizaram 11 avaliações semanais em diferentes fases da cultura para monitorar a ocorrência das principais pragas agrícolas.

As medições comprovaram que os níveis de desfolha, tripes, lagartas, percevejos e besouros desfolhadores permaneceram abaixo do nível de dano econômico durante toda a safra. Paralelamente, a equipe do CEBIO registrou a ocorrência dessas mesmas pragas em propriedades vizinhas que adotaram exclusivamente o controle químico.

Além do monitoramento em campo, amostras de dois lotes produzidos na biofábrica foram submetidas à análise em laboratório privado. Os testes confirmaram que os produtos continham alta concentração de microrganismos benéficos e não apresentavam contaminação por outros microrganismos contaminantes que pudessem comprometer sua eficácia. 

Um dos principais objetivos da pesquisa foi avaliar a viabilidade econômica da produção on farm de bioinsumos para a fixação biológica de nitrogênio atmosférico e o controle biológico de pragas na soja, comparando seus custos com os de bioinsumos comerciais equivalentes.

Para isso, os pesquisadores analisaram produtos à base de três bactérias amplamente utilizadas nas lavouras: Bradyrhizobium japonicum, Azospirillum brasilense e Bacillus pumilus. O levantamento considerou não apenas os custos de produção da biofábrica, mas também os investimentos em infraestrutura, as despesas operacionais e os custos relacionados ao controle de qualidade dos produtos.

Os resultados demonstram que a produção on farm pode representar uma alternativa economicamente vantajosa, mas essa vantagem varia conforme o microrganismo utilizado e as características de cada sistema produtivo.

Além dos resultados econômicos, o estudo identifica fatores considerados fundamentais para o sucesso da produção de bioinsumos on farm, como (1) acesso a inóculos de qualidade, (2) infraestrutura adequada, (3) serviços laboratoriais para controle microbiológico, (4) mão de obra qualificada e (5) assistência técnica especializada.

A publicação também destaca que investimentos públicos em pesquisa, desenvolvimento e inovação são essenciais para ampliar o acesso a tecnologias seguras, enquanto iniciativas voltadas à implantação de biofábricas cooperativas e laboratórios compartilhados podem ampliar a adoção dos bioinsumos e reduzir custos para os produtores.

Outro aspecto apontado é a importância da mão de obra especializada. Os pesquisadores destacam que a produção de bioinsumos on farm depende da disponibilidade de profissionais capacitados para operar a biofábrica e realizar o controle de qualidade dos produtos. Em regiões com escassez de técnicos qualificados, a adoção desse modelo pode exigir investimentos adicionais em capacitação, tornando sua implementação mais desafiadora. 

A participação no estudo da FAO reforça o papel do CEBIO na vanguarda do conhecimento científico sobre bioinsumos e na produção de evidências capazes de orientar a adoção dessas tecnologias no campo.

Para Alan Carlos, Pró-Reitor de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação do IF Goiano, o reconhecimento internacional também evidencia a importância dos investimentos realizados em pesquisa e inovação em terras goianas. Criado a partir de uma parceria entre Instituto Federal Goiano (IF Goiano), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG) e Governo de Goiás, o CEBIO vem consolidando um robusto ecossistema de pesquisa, formação de recursos humanos e transferência de tecnologia voltados ao fortalecimento da agricultura sustentável. 

Para maiores informações, acesse o estudo na íntegra: https://www.fao.org/investment-centre/latest/news/detail/making-economic-and-financial-sense-of-bioinput-investments-in-latin-america-and-the-caribbean/es 

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